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CNI vê 'recuperação lenta' da indústria

Publicado em 15/04/2013

O diretor de Políticas e Estratégia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), José Augusto Fernandes, admitiu hoje que o setor vive um processo de recuperação, mas se queixou de que a trajetória de retomada é lenta e precisa ser catalisada com base em investimentos.

“Pensando no curto prazo, a área de menor resistência ainda é atuar sobre a recuperação do investimento. O investimento já está em processo de recuperação, mas existem ações que podem ser feitas ainda em 2013”, afirmou durante seminário promovido pela revista Brasileiros em um hotel na zona sul de São Paulo. Para ele, há bons sinais de que o processo de retomada do crescimento da economia brasileira será relativamente fácil: o nível baixo dos estoques de produção e a capacidade ociosa de alguns setores industriais.

Apostando em uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) superior a 3% este ano, ante 0,9% em 2012, o diretor da CNI afirmou que há vários setores ansiosos em investir, como petróleo e gás, celulose e biodiversidade. Ele elencou, porém, uma lista de fatores eternamente presentes no discurso do empresariado quanto aos motivos que travam um desenvolvimento maior do setor industrial. Na visão dele, será preciso melhorar a competitividade e garantir que a política econômica do governo federal esteja alinhada a essa meta.

Fernandes voltou a indicar o custo da mão de obra como um problema, somada à falta de uma taxa de câmbio mais favorável, ao sistema tributário, visto como pesado, e ao desenvolvimento de infraestrutura. Para ele, este último fator pode ser um rápido indutor de investimentos, garantindo a retomada da atividade na indústria. “Por que as reformas não avançam?”, indagou. “Existem inúmeras razões. Somos um país complexo. Somos uma bem-vinda democracia, então temos de convencer. E somos uma federação. Qualquer reforma no Brasil exige o uso de capital político.”

David Kupfer, assessor da presidência do BNDES e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considera que antes é preciso inverter uma relação que se mantém há décadas. “A gente está há 20 anos pensando como a macroeconomia pode ajudar a indústria brasileira. O que está bastante claro, olhando o momento atual, é que não haverá uma saída macroeconômica para o Brasil sem um processo de transformação produtiva bastante profundo que permita que a gente escape das armadilhas colocadas no presente.”

Para o economista, não é verdadeira a ideia de que a indústria brasileira esteja “adormecida”. O que ocorre, na visão dele, é que os mesmos setores se mantiveram no comando do setor desde o século passado, sem que se pensasse em inovação. “A gente precisa fazer nascer uma indústria nova. Não é despertar uma indústria que está hibernando. É abrir espaço para um processo de mudança estrutural.”
Kupfer reconhece no setor de infraestrutura um poder de retomada rápida dos investimentos, mas adverte que é preciso trabalhar sob uma nova perspectiva. “É fundamental que se leve em conta que a infraestrutura, quando estiver em funcionamento, tem de ser altamente eficiente. Tem de reduzir os custos sistêmicos de competitividade. Isso exige planejamento em um nível muito além do que se pretende fazer neste momento”, diz, cobrando um desenho mais aprofundado das matrizes energética e logística. “Não temos massa crítica para disparar uma metralhadora giratória de busca de inovações. Então, precisamos concentrar esforços em setores que tragam um retorno social visível em um prazo não muito longo. A infraestrutura deve ser esse setor.”

Para o economista-chefe da LCA Consultoria, Bráulio Borges, os investimentos nesse sentido têm apresentado evolução, mas ainda carecem de melhor direcionamento. Ele considera fundamental priorizar os setores de transporte, energia elétrica, telecomunicações e saneamento, que têm baixa dependência em relação ao setor externo, diferente do que ocorre com máquinas e equipamentos, que têm crescido, mas afetam a balança externa porque ficam a reboque de importações. “A estratégia é concentrar todos os esforços em investimentos de infraestrutura econômica, o que significa chamar o setor privado”, diz. “É uma conclusão meio óbvia, mas, dado o que aconteceu até agora, não dá para manter o padrão de investimento feito até agora, financiado pela piora das contas externas.”

Borges argumenta que o Brasil não teve problemas mais sérios na balança comercial devido ao aumento do câmbio e aos altos preços internacionais de produtos básicos, como commodities agrícolas e minérios. Daqui por diante, porém, esse bônus acabou, na visão dele, e será necessário garantir uma melhoria no nível das exportações, ainda que não exista possibilidade de abrir mão do potencial da população nacional. “O consumo tem de continuar crescendo. O Brasil é um dos maiores mercados consumidores do mundo. O investimento depende muito do que acontece no mercado interno. Não dá para imaginar um cenário em que tenha investimento crescendo com o mercado estabilizado.”

Fonte: João Peres, Rede Brasil Atual

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