Mais uma semana de angústia. As brutais oscilações, algumas vezes para cima e quase sempre para baixo,
dos mercados de ações de todo o mundo são sintomas da gravidade da crise financeira. Esse movimento,
que passa da euforia ao desespero em questão de horas, vai provavelmente colocar um interregno no ciclo recente de
crescimento acelerado da economia internacional.
É difícil prognosticar qual o impacto efetivo da crise financeira na economia real. Sem dúvida, o medo,
a incerteza e a busca por segurança irão, no curto prazo, contrair a liquidez, tornar o crédito mais
caro e seletivo. Mas o pior e mais difícil de ser antecipado é saber quão longo será o saneamento
da carteira das instituições financeiras.
Infelizmente, o Brasil não passará ileso à crise. Num mundo tão interdependente, não há
espaço para se iludir, como no passado, com a idéia de que somos uma ilha de prosperidade. Embora também
seja certo que podemos minorar os impactos da crise e podemos usar alguns dos bons fundamentos que temos para seguir crescendo,
ainda que a taxas mais modestas.
Os efeitos mais deletérios para nós serão e já estão presentes - a contração
do crédito ao comércio exterior e a queda dos preços das commodities. Eles irão impactar muito
rapidamente na balança comercial, que já vinha dando sinais de piora em função da apreciação
do câmbio e da desaceleração de parte importante da economia mundial. É visível que o câmbio
irá tender a se desvalorizar, neutralizando um pouco a queda de preços de parte de nossas exportações.
A conjuntura vai pôr à prova a Política de Desenvolvimento Produtivo, que se anunciava muito promissora
e que ainda pode e deve ser uma ponte com o futuro. Será preciso revigorar a PDP e dotá-la de mecanismos ainda
mais fortes para essa travessia, reforçando o apoio do BNDES ao comércio exterior, ao aumento de capacidade
produtiva e à inovação.
O melhor que podemos fazer é manter altas taxas de investimentos, que seguem sendo necessárias para atender
ao aumento do consumo doméstico ou projetos de exportações de commodities que ainda serão muito
rentáveis, mesmo com a queda dos preços. Vamos ter de atravessar essa tormenta com olhos no futuro.
Chamou-me muito a atenção a capa da BusinessWeek de edição recente. No meio de uma crise inédita,
a revista abre sua capa para uma matéria sobre a necessidade de reforçar a competitividade da economia americana.
E qual o centro dessa estratégia? Simples, ao menos para eles: revigorar a capacidade de inovação das
empresas americanas. Curioso é ver que o mundo segue seus passos e que o longo prazo depende das decisões que
tomamos cotidianamente.
Para além da crise, que exigirá medidas rápidas de política econômica que atenuem os efeitos
de contágio interno, há um futuro a construir. Sem dúvida era mais fácil pensar no futuro no ambiente
de mais segurança de alguns meses atrás. Mas aqui terá de ser travada a batalha principal.
Se quisermos ter um futuro melhor, a ponte mais efetiva para atravessarmos essa tormenta será o investimento. E investimento
com qualidade, que reforce a capacidade de inovar e de competir das empresas brasileiras.
Para tanto é necessário que o Brasil perca o "medo de crescer" que tem caracterizado a gestão
da política econômica nos últimos 15 anos. Toda vez que o crescimento da economia se acelera, surgem os
"falcões da inflação" a prognosticar a volta do monstro.
O assim chamado "produto potencial", que os "falcões da inflação" usam a todo o momento
como justificativa para uma nova dose de aumento de taxas de juros, nada mais é do que um "espelho retrovisor"
que reflete o período no qual o País crescia pouco.
O Brasil mudou muito nos últimos anos. Novos investimentos foram feitos, a capacidade produtiva das empresas se expandiu,
a economia está mais moderna e mais sólida. Parafraseando Keynes, o "passado deixou de ser um bom guia
para o futuro".
Precisamos dar uma chance ao crescimento. O ciclo de elevação das taxas de juros deve ser interrompido já
na próxima reunião do Copom, marcada para o final do mês de outubro. Se isso não ocorrer, corremos
o risco de abortar outro ciclo de crescimento da economia brasileira, repetindo o triste padrão "stop-and-go"
das últimas duas décadas.
Rodrigo da Rocha Loures*, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e
presidente do Conselho de Política Industrial da CNI.
Rodrigo da Rocha Loures*, presidente da Fiep, para Gazeta Mercantil - 02/10/2008