É consenso que a educação básica de qualidade é a pré-condição para
a formação de qualquer sociedade pautada pelo respeito e valorização da dignidade humana. É
o caminho mais consistente e sustentável para erradicar a pobreza, reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento
político, econômico e social. Mas no Brasil a qualidade da educação não tem sido vista como
uma prioridade estratégica.
Segundo o Ibope, apenas 1% da população cita a educação como prioridade, enquanto 68% nem sequer
sabe o que o governo da sua cidade está fazendo nessa área. Vale o slogan: “Educação: direito
de todos, dever do Estado”. Feito isso, tudo bem.
Se educação de qualidade não é prioridade para o eleitor, é natural que também não
seja para os políticos. Nestas eleições municipais continuam prometendo, de forma escandalosamente vaga,
construir, ampliar e reformar escolas, contratar mais professores, instituir um programa de contraturno escolar etc.
Como sabem que o eleitor não prioriza a qualidade da educação, são poucos os candidatos efetivamente
comprometidos em melhorar a gestão da escola, a capacitação dos professores, a rever o método
de ensino e a criar programas com significado para as crianças.
Mudar esta situação é o grande desafio que temos que enfrentar. Em todas as localidades que conseguiram
dar um salto notável no seu processo de desenvolvimento, a sociedade se envolveu na solução do problema
da qualidade do ensino. Isso vai muito além da cobrança pelo bom funcionamento do aparato escolar. Promover
a educação também é um dever da comunidade, pelo menos daquelas que querem progredir.
Por isso, devemos nos converter em apóstolos da criação de cidades educadoras, que propiciem novos ambientes
de aprendizagem que assegurem um ensino de qualidade para todos. Isso implica na constituição de uma nova institucionalidade
que agregue o governo local, a sociedade civil e os cidadãos. Trata-se de uma verdadeira Parceria Público-Privada.
É isto que propomos ao criar o Movimento de Cidades pela Educação Básica no Paraná. Com
ele, queremos estimular nossos municípios a atingir três metas nos próximos quatro anos: a) universalizar
o atendimento de pré-escola para crianças a partir de 4 anos, até 2010; b) alfabetizar todas as crianças
de até 8 anos, até 2011; e c) atingir, no mínimo, o índice 6,0 no Índice de Desenvolvimento
da Educação Básica (Ideb), até 2012.
Isso não será possível só pela mão do poder público. Para atingir tais objetivos
é preciso a ajuda e a participação ativa da iniciativa privada, das organizações da sociedade
civil e, sobretudo, dos cidadãos que voluntariamente desejem se engajar em atividades escolares e extra-escolares.
Cidade educadora não é só uma cidade escolarizada. Ao focalizar exclusivamente as escolas como instrumentos
ou espaços educativos, pode-se estar contribuindo para uma indesejável escolarização da sociedade,
ao invés da necessária integração das escolas num contexto mais amplo pela educação
nas cidades. Cidades educadoras são aquelas nas quais proliferam, além de um sistema escolar eficiente e inclusivo,
múltiplos ambientes educadores.
É necessário arregaçar as mangas e sair a campo. Existem dezenas de coisas que cada um de nós
pode fazer para impulsionar o processo educacional em nossas cidades. No site www.cidadespelaeducacao.org.br
encontraremos várias sugestões de ações simples que podem ser executadas por qualquer pessoa.
Nós, empresários, devemos nos engajar nesse processo e não ficar reduzidos a meros e secundários
patrocinadores do que já existe. Destinando uma parte do nosso tempo a esta causa, vamos contribuir para envolver a
escola na vida da comunidade e a comunidade na vida da escola e garantir um salto de qualidade na educação.
Temos de assumir uma nova atitude e não continuar empurrando o problema para os governos. Se ficarmos comodamente lavando
as mãos, a educação nunca virará uma verdadeira prioridade, nem para nós – cidadãos
–, nem para nossos representantes eleitos.
Rodrigo da Rocha Loures, presidente da Fiep, para Gazeta do Povo - 01/10/2008