Entre grampos e candidaturas municipais, o fato político economicamente mais relevante no momento é a polêmica
em torno do destino que se dará aos lucros provenientes das águas profundas do Pré-sal. Talvez o governo
saiba mais do que revele e menos do que oculta; mas, a verdade é que opera com a informação e a desinformação.
A imagem de bilhões de barris de petróleo dando sopa no fundo do mar é uma boa nova envolta em mistérios
e incertezas, cuja perspectiva já suscita a justa preocupação com o futuro. O presente vem embrulhado
por ideologias, disputas federativas e muito cálculo político-eleitoral.
Há uma profusão de dados desencontrados, palpites, chutes e preferências que desencorajam espíritos
moderados: esquece-se o processo, vai-se direto ao resultado. O futuro explode em nonsense: “não haverá
mais problemas de contas externas no Brasil” (Guido Mantega). Rico ri mesmo à toa, mas quem fala demais dá
bom dia a cavalo. Enquanto a onda de euforia varre a precaução, áreas e contratos mais antigos aguardam
a definição das marés. Por enquanto, o mais importante é estabelecer um novo clima, antecipar
o otimismo; aproveitar o momento eleitoral agora e mais adiante, novamente.
Naturalmente, ninguém sabe ao certo o que fazer com o bilhete premiado. São tantas as carências e maiores
ainda as demandas. Mas, quatro aspectos que devem ser considerados: a) as fragilidades regulatórias do país
são evidentes; b) dissensos federativos e tributários emergem com maior intensidade diante da promessa de novos
recursos; c) dissonâncias ideológicas impõem elevados custos de decisão política e transação
econômica; d) um aguçado senso de oportunidade opera para se estabelecer o cálculo político como
lógica do processo.
Marco regulatório
O governo Lula nunca foi exatamente um entusiasta do modelo de Agências de Regulação. O mecanismo desenvolvido
nos anos FHC é percebido como um enclave tucano em território petista: menos que salvaguarda do Estado, um instrumento
a serviço do mercado. Naturalmente, isto fez com que aspectos técnicos fossem relevados e o cálculo político,
não raro, sobrepujasse a racionalidade econômica.
É evidente que “dados novos” e “janelas de oportunidade” podem implicar em mudança de
regras – os próprios contratos registram isso -- e todo governo tem direito de alterar, conforme as circunstâncias,
sua visão estratégica de futuro; novas e diferentes formas de organização podem ser necessárias.
Mas o fato é que a fragilidade das Agências permite a proliferação de opiniões e interesses
que, não raro, buscam subordinar decisões técnicas e econômicas a interesses de governo, grupos
ou partidos. Perde-se as salvaguardas ao poder unipessoal.
Federação?
Outro aspecto: a expectativa inibe iniciativas fiscais e tributárias que coordenem os chamados “entes federativos”.
União, estados e municípios já se digladiavam por recursos minguados; ministérios manobravam de
modo a se adiantarem à divisão de raspas e restos. Agora, a tendência é de que o prato bonito aumente
ainda mais a fome; olhos esbugalhados enxergam pior.
A reforma tributária e a revisão do pacto federativo, necessidades freqüentemente lembradas, ganham nova
variável paralisante: como definir regras agora? Na ausência de força hegemônica, interesses contraditórios
se anulam. Concilia-se ponto a ponto, sem visão sistêmica; são os caraminguás (e não a visão
de futuro) que podem vir a arregimentar maiorias. Negocia-se o que já é consenso; acordos em torno do óbvio.
O conflito mesmo fica prá depois. Tudo se abranda num gradualismo a perder de vista.
Nesse clima de conciliação sem definição, haverá força para impor regras ao gasto
de royalties provenientes desse tipo de riqueza, natural e esgotável? O mais provável é que a injeção
de recursos extraordinários entre em consonância com interesses eleitorais de curtíssimo prazo. Resultado:
pouco ou nenhum investimento em infra-estrutura ou educação; aumento das estruturas administrativas, elevação
de despesas correntes que comprometerão o futuro. Come-se no almoço o que deveria ser o jantar. Mas, isto contentará
governadores e prefeitos, o que já é o suficiente.
Ideologias pra quê te quero
Nesse ambiente – assimetria de informação, regras indefinidas, estados e municípios pouco confiáveis
--, prolifera um debate repleto de opinião e idiossincrasia a respeito do pré-sal. A natureza estatal e nacionalista
do governo entra em conflito com lobbies e pressões de mercado. Na variedade de desejos, o presidente da República
arbitra; sua esfera política passa a ser decisiva. Hoje, Lula o faz pragmaticamente. Mas, amanhã, como será?
A União tem assumido a condição de “dono da bola”, busca impor sua vontade aos jogadores
e redefinir as regras do jogo que coloquem o resultado sobre seu controle. Nem mesmo à Petrobrás é dado
privilégio; quer mais para si. Impostos e royalties não bastam; o Estado deseja, pelo menos, a maior parte dos
lucros; quer tornar-se protagonista e indutor de todo o desenvolvimento, seu devir histórico. Uma forma de ver o mundo,
certamente. Todavia, possivelmente carente de clareza em relação à eficiência e à qualidade
dos gastos de uma máquina, não raro, desorganizada e anacrônica e avessa à auto-reforma.
Oxalá, a “futura empresa do pré-sal” fuja dessa sina, escapando dos interesses de grupo corporativos
ou da “cultura da casa”. Mas, a pressão será grande. O que fazer da fortuna -- no sentido lato e
maquiaveliano do termo -- dependerá mesmo, quase que exclusivamente, do tirocínio de Lula. Chegou a hora de
mostrar que realmente possui virtù.
Projeto de poder
Para além de uma racionalidade econômica pura, o sofisticado radar político de Lula já captou o
potencial do tema: erradicação da miséria e ampliação da educação, elementos
que lhe valeram a reeleição e a popularidade de que goza neste momento (até em São Paulo!). A
defesa do pré-sal, portanto, tende a ser a bandeira eleitoral de sua sucessão: o presidente se apresentará
como portador da boa nova e o fiador da promessa; deixará em seu lugar alguém para encaminhá-la e, quem
sabe, preparar as condições de sua volta para realizá-la.
Facilita-lhe o caminho esta conciliação de fatores: ausência de regras claras, o dissenso entre governos,
a paixão que a polêmica desperta – “o pré-sal é nosso!” –, a enorme popularidade,
a maioria negociável no Congresso, a ausência de antagonistas fortes, uma oposição prá lá
de fragmentada. Não cabem considerações principistas: a definição do pré-sal estará
subordinada ao tempo político. Não é por outro motivo que desde o primeiro momento Lula e seu ciclo mais
próximo não param de bater o bumbo.
Carlos Melo*, cientista político, doutor pela PUC-SP, professor de Sociologia e Política do Ibmec São
Paulo. Autor de “Collor: o ator e suas circunstâncias” (Novo Conceito).
Carlos Melo*, cientista político, para blog Ricardo Noblat - 24/09/2008