BRASÍLIA - O escândalo dos grampos já está quase no arquivo de indignações sem solução
do Brasil.
O último capítulo foi um laudo da PF na semana passada sobre a capacidade de a Abin fazer escutas telefônicas.
Os equipamentos dos arapongas só captam conversas a partir das antigas linhas analógicas.
Logo, o presidente do STF, Gilmar Mendes, não teria sido ouvido ilegalmente com os aparelhos do serviço secreto
federal.
A reação negativa ao laudo explicitou o estágio de degradação das instituições
brasileiras. Ministros, congressistas e juízes colocaram sob suspeita a perícia. A CPI dos Grampos já
anunciou uma análise independente -que certamente também será questionada.
Na quinta-feira à noite, num jantar com gente graúda da República, não se ouvia ninguém
disposto a defender o resultado do laudo da PF. Há um estado de desmoralização de calibre não
desprezível das instituições em Brasília.
O Congresso não confia no Poder Executivo, que não confia no Poder Judiciário, que não confia
em ninguém. Não se trata da desejável fórmula dos freios e contrapesos pensada por Montesquieu
há 260 anos.
O caso brasileiro é de aversão abjeta, pura e simples, um pelo outro.
Há pouca ou nenhuma disposição de colaboração mútua dentro do governo. Desde a volta
à democracia os Três Poderes vivem uma lenta, constante e perigosa perda de credibilidade. É quase um
esporte nacional falar mal dos "políticos", expressar repugnância por qualquer órgão
policial ou desconfiar da isenção dos juízes.
Depois de décadas de estagnação ou retrocesso, houve alguns avanços na economia e no social. Tudo
muito lento. Mas, na área dos costumes e boas práticas públicas, a velocidade é ainda menor. Para
piorar, há pouca gente disposta a descontaminar o ambiente e produzir um país mais saudável.
Fernando Rodrigues, repórter e colunista da Folha de S.Paulo - 22/09/2008