Um dia o país precisará enfrentar os que, escudados nos "movimentos sociais", obstaculizam
maior avanço rumo à modernidade
SE ALGUM dia as reformas que vêm sendo há anos postergadas entrarem finalmente na agenda das (futuras) autoridades,
será preciso que o país se prepare para enfrentar aqueles que obstaculizam um maior avanço do país
rumo à modernidade, escudados nos chamados "movimentos sociais".
Sob o véu da suposta defesa dos interesses da maioria da população, o denominador comum de muitos desses
grupos é o autoritarismo. Com base em uma retórica agressiva, estão na vanguarda de todos os movimentos
de resistência à agenda que pretende integrar o Brasil às tendências mais modernas do mundo.
São os mesmos que lideraram o movimento em favor da reestatização da Vale, dez anos depois de ela ter
sido privatizada. Que grupos são esses?
Eles representam a confluência de três vetores. O primeiro é o dos intelectuais intolerantes; o segundo,
o de certos grupos políticos; e o terceiro, o de grupos sindicais dedicados à administração de
recursos milionários.
O primeiro grupo é representado por aqueles que enchem a boca para falar mal do famoso "neoliberalismo".
Vivem fazendo discursos contra o Consenso de Washington, mas 99% deles jamais se deram ao trabalho de ler o trabalho de J.
Williamson que deu origem ao termo.
A expressão máxima dessa atitude, pela qual alguns intelectuais fazem a cabeça de parte do espectro dos
políticos, foi manifestada por uma das mais conhecidas lideranças políticas brasileiras, que há
alguns anos se manifestou nos seguintes termos: "Em nosso partido, estamos abertos a todos. Só não cabem
nazistas, racistas, delinqüentes políticos e neoliberais" ("Jornal do Brasil", 8/2/ 04). Nesse
meio, ignora-se o conceito do que sejam "adversários": só há inimigos.
O segundo grupo é a constelação de partidos ditos de esquerda, originalmente romântica, mas que
em linhas gerais são desprendimentos de uma mesma costela stalinista, em que delírios incompatíveis com
a realidade dos dias de hoje se confundem com o apego a diversas formas de coerção.
Nas suas versões mais inofensivas, fazem barulho em passeatas. Nas formas mais radicais, seus congêneres de outros
países compõem a tropa de choque do esquerdismo fascistóide latino-americano. Na Venezuela, fecham canais
de televisão. Na Argentina, travestidos de "piqueteros", arregimentam capangas para -literal e fisicamente-
bater na classe média quando ela vai para a rua protestar contra as políticas oficiais.
O terceiro grupo é o dos sindicalistas encastelados no aparelho de Estado e nas suas diversas ramificações,
acostumados a viver das benesses do repasse de recursos públicos, em atitude que faria se virarem nos túmulos
os líderes sindicais, ingênuos e modestos, que forjaram historicamente as raízes do sindicalismo autêntico,
há várias décadas.
Em 2007, tive a oportunidade de ser testemunha de um exemplo do comportamento desse grupo, quando participei como expositor
do Fórum da Previdência. Ao meu lado, ar de quem era dono da situação, pouco ligando para a liturgia
do evento, estava o representante de uma das centrais sindicais. Defendi, na ocasião, o que tenho dito há anos:
idade mínima para aposentadoria de 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, aumento do período contributivo
para 25 anos até 2031, redução da diferença entre homens e mulheres para efeito de aposentadoria
ao longo de uma transição de 15 anos etc. Nada do que foi proposto pode, honestamente, ser chamado de "draconiano".
Ao concluir, quem primeiro pediu a palavra foi a pessoa citada, que começou seu discurso com as seguintes palavras:
"Estou impressionado com a crueldade do professor Giambiagi".
Ao concluir, se retirou: ao chegar o momento da tréplica, eu dialogava com uma cadeira vazia.
Ao voltar para suas "bases", a pessoa deve ter dito que "defendeu os interesses do povo contra a tentativa
de avanço do neoliberalismo". Quanto ao problema demográfico representado pelo envelhecimento da população
nas próximas décadas, dele só se ouviu o silêncio.
Não se trata de um debate entre grupos que, partindo de posições diferentes, negociam para depois chegar
a um meio termo razoável. Não nos enganemos: há uma profunda raiz autoritária na atitude de todos
esses grupos. Cedo ou tarde, para conquistar corações e mentes em favor das reformas, será preciso enfrentar
a resistência desses grupos.
É evidente que poderá ser tentador, com o pré-sal, conservar a política do "deixa estar"
e não fazer reforma alguma. Nesse caso, porém, o Brasil daqui a 30 anos será melhor que o de hoje, mas
ficará aquém do país que poderíamos ser.
--------------------------------------------------------------------------------
FABIO GIAMBIAGI* , 46, mestre em economia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é economista do BNDES
e autor do livro "Finanças Públicas: Teoria e Prática no Brasil", entre outras obras.
Fabio Giambiagi*, economista do BNDES, para Folha de S.Paulo - 21/09/2008