Bem quando se encontra no olho do furacão a que foi arremetida pelas revelações de que o delegado Protógenes
Queiroz se excedeu na condução da Operação Satiagraha - entre outras coisas, ao franquear a arapongas
convidados o acesso a peças de um inquérito sob segredo de Justiça -, eis que a Polícia Federal
(PF) se torna protagonista de mais uma situação de constrangedora notoriedade. Cumprindo determinação
de um juiz federal de Macapá, a pedido do Ministério Público (MP) do Amapá, o diretor-geral da
PF, Luiz Fernando Corrêa, teve que fazer na terça-feira o que nunca antes tocou a um antecessor: dar voz de prisão
ao seu principal subordinado, portanto o número dois da corporação, o diretor-executivo Romero Lucena
de Menezes - sem TV nem algemas.
Com 30 anos de casa, considerado um dos seus mais qualificados quadros técnicos, Menezes é tido como um dos
mentores da política de divulgar com estardalhaço, especialmente pela TV, as sortidas para a detenção
de suspeitos da prática de crimes de colarinho-branco. Agora, ele próprio é suspeito de advocacia administrativa,
corrupção passiva privilegiada e tráfico de influência, assim como de ter vazado informações
da Operação Toque de Midas ao seu irmão José Gomes, também posto sob prisão cautelar.
Deflagrada em julho, a operação investiga possíveis fraudes na licitação vencida pela mineradora
MMX, subsidiária da EBX do empresário Eike Batista, para a exploração da ferrovia que leva minério
da Serra do Navio ao Porto de Santana. O grupo teria pago propina a membros do governo do Amapá.
No curso das apurações, surgiram sinais de que o diretor-executivo - por sinal, o coordenador de todas as grandes
razzias da PF a partir de 2003, como as operações Chacal e Vampiro - teria se valido do cargo para conseguir
contratos para a empresa do irmão José Gomes, a Serv-San, que presta serviços para a MMX. Em conversas
gravadas com autorização judicial, Gomes dizia que o irmão poderia resolver problemas da empresa e de
seus clientes. Menezes teria fraudado a sua inscrição em um curso especial de segurança portuária,
ministrado por um órgão do Ministério da Justiça. Ao ser preso - para resguardar o trabalho de
coleta de provas -, negou que tivesse cometido irregularidades e entregou o cargo. O corregedor-geral da PF mandou instaurar
procedimento interno para verificar a veracidade das denúncias ou se, em seus negócios, Gomes usou o nome do
irmão à sua revelia.
O vazamento atribuído a Menezes prejudicou a operação, afinal antecipada em uma semana, e fez a PF desistir
de pedir a prisão de Eike Batista. Coincidentemente, quando a corporação era dirigida pelo delegado Paulo
Lacerda, atual chefe (afastado) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Menezes era o segundo do então
diretor-executivo Zulmar Pimentel - afastado em maio de 2007 sob a acusação de vazar informações
da investigação sobre o envolvimento de policiais com a construtora Gautama, alvo da Operação
Navalha. Casos de malfeitos na corporação têm vindo à tona nos últimos anos. Em 2005, o
sumiço de cerca de R$ 2 milhões de um cofre da PF terminou com a queda dos chefes de todas as delegacias especializadas
da PF no Rio de Janeiro. Em 2006, uma devassa interna levou à prisão de seis delegados. Dois outros foram apanhados
na Operação Hurricane, sobre a máfia dos caça-níqueis.
A prisão de Menezes abriu uma crise entre a Polícia Federal e o Ministério Público, cuja cooperação
na Toque de Midas se ressentia da relutância dos federais, temerosos, quem sabe, dos desdobramentos da operação.
No mesmo dia, o presidente Lula foi informado pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, a quem a PF responde, que o clima
entre os federais era de "indignação". Segundo um relato, o ministro teria dito que "não
há nada de concreto contra Menezes além do fato de ser irmão de uma pessoa sob investigação".
E embora, ao que tudo indica, o caso não tenha relação com o problema da chamada "parceria PF-Abin"
na Operação Satiagraha e os apontados desvios de conduta do delegado Protógenes, o impacto do episódio
não pode ser subestimado - em que pese a decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região de revogar
a ordem de prisão de Menezes, solto no começo da madrugada de ontem.
Editorial Estadão - 18/09/2008