Para garantir aprovação, Mabel aumenta prazo de validade dos incentivos atuais e antecipa fundo de desenvolvimento,
mostra debate na TV Câmara
Os deputados já perderam a conta de quantas propostas de reforma tributária já chegaram à Casa
nos últimos anos, todas com mais ou menos os mesmos objetivos: simplificar o pagamento de impostos e acabar com a guerra
fiscal. Todas falharam, em parte porque os estados não querem perder o poder de atrair empresas a partir da concessão
de incentivos fiscais. Existem razões para acreditar que dessa vez pode ser diferente.
Afinal, estados e municípios não têm do que se queixar em relação a perda de receitas. E,
apesar da ameaça da inflação, a economia está aquecida, o que favorece a discussão. Mas
o velho nó dos incentivos fiscais concedidos pelos estados menos desenvolvidos ainda é um entrave, como ficou
patente no programa Expressão Nacional, da TV Câmara, na noite da última terça-feira (1°).
Participaram do debate o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy;
o deputado Sandro Mabel (PR-GO), relator da Reforma Tributária; o deputado Edinho Bez (PMDB-SC), vice-presidente da
Comissão Especial que trata do assunto; o secretário de Fazenda do Maranhão, José Azzolini; e
o economista Vander Lucas, da Universidade de Brasília (UnB).
Appy fez uma defesa enfática do projeto enviado pelo governo à Câmara. "Essa proposta de reforma
tributária tem potencial para gerar um crescimento de meio ponto percentual na economia do país pelos próximos
20 anos", disse. E deu um exemplo prático da conseqüência da guerra fiscal, modelo que considera exaurido.
"Os estados deixam de arrecadar R$ 15 bilhões com os incentivos concedidos para atrair empresas", disse.
O problema é que muitos estados vêem como única alternativa para atrair indústrias os incentivos
fiscais. E olham com desconfiança para os mecanismos de compensação e de desenvolvimento regional embutidos
na Reforma Tributária. A proposta do governo contém um fundo para compensar eventuais prejuízos com fuga
de empresas depois que os incentivos fiscais forem extintos e outro para promover o crescimento dos estados mais pobres.
As desconfianças foram expressas pelo secretário de Fazenda do Maranhão. Segundo Azzolini, os secretário
de Fazenda dos estados, reunidos no Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), enxergam pendências
na proposta, como o valor do fundo e o grande hiato entre o fim dos incentivos fiscais e a entrada em vigor da compensação,
prevista para dois anos no projeto original.
Mabel concordou que o período excessivamente longo para o fundo de desenvolvimento despejar recursos nos estados pode
fazer com que os governadores não tenham nenhum instrumento para compensar o fim dos incentivos fiscais. Por isso reduziu
o prazo para a entrada em vigor do fundo para 90 dias. E ao mesmo tempo ampliou o período de transição
para as novas regras para 11 anos – e não oito.
Pela proposta do governo, a guerra fiscal acaba a partir do momento em que o ICMS passa a ser pago no estado de destino do
produto, ficando o estado de origem com uma alíquota de apenas 2% para fins de fiscalização.
Mas o relator da proposta, que é da base governista, admitiu que não é contra os incentivos fiscais.
"Sou contra a guerra fiscal, mas não contra os incentivos fiscais", disse. Mabel é representante de
um estado, Goiás, que está entre os que mais se beneficiaram dos efeitos positivos da guerra fiscal nos últimos
anos. Graças à política de incentivos, o eixo Brasília-Goiânia, hoje, é um dos que
mais cresce e atrai indústrias no país.
É justamente esse raciocínio que produz insegurança em muitos estados a respeito do fim do poder de atrair
indústrias com incentivos fiscais. O que o governo argumenta é que essa política começa a dar
prejuízos, não só para os estados que vivem uma fuga de indústrias, mas para o país.
A título de exemplo: nos anos 90, foram fechados 17 abatedouros em Minas Gerais. Isso porque São Paulo, Bahia,
Goiás, Espírito Santo e Ceará reduziram ou eliminaram o ICMS. Não por acaso, no mesmo período
foram abertos 11 frigoríficos em São Paulo e seis em Goiás. Por outro lado, incentivos fiscais também
fizeram com que montadoras de automóveis fossem implantadas, entre 1996 e 2001, na Bahia, Goiás, Minas, Paraná
e Rio Grande do Sul, para prejuízo do antigo pólo automobilístico paulista.
Por isso, a conclusão do economista Vander Lucas foi na direção da diminuição das diferenças
regionais para o êxito de uma verdadeira reforma tributária. "O que é preciso é uma política
de industrialização e desenvolvimento dos estados mais pobres", disse.
O programa sobre o fim da guerra fiscal será reprisado sexta (04), às 4h e às 11h30; sábado (05),
às 12h; domingo (06), às 9h30; e segunda (07), às 6h e às 10h.
Na próxima terça-feira (08), às 22h, o Expressão Nacional vai debater ao vivo o setor aéreo,
um ano depois do acidente da TAM em São Paulo. Sugestões e perguntas podem ser enviadas pelo email expressaonacional@camara.gov.br
ou pelo telefone gratuito 0800-619619.
Antonio Vital, apresentador do programa Expressão Nacional, para Congresso em Foco - 03/07/2008