A pesquisa CNI Ibope divulgada essa semana demarca uma mudança na conjuntura política nacional ao revelar que
a população brasileira está atenta e preocupada com a inflação. A mordida no bolso começa
a ser sentida. A primeira reação é de apreensão. O povo confia no compromisso do presidente com
a proteção da capacidade de consumo das pessoas, mas reprova as medidas do governo de combate à inflação.
De fato, a o fantasma da inflação está no horizonte das análises econômicas há meses.
Mas, ainda não havia sido percebido pelo trabalhador. Uma queda-de-braço entre o presidente do Banco Central
e o ministro da Fazenda, o primeiro defendendo a elevação dos juros e o segundo defendendo maior permissividade
com a banda de flutuação das metas inflacionárias, vem sendo travada há meses, fora das páginas
principais dos jornais.
A apreensão dos analistas que entendem o risco de descontrole inflacionário é visível desde o
início dessa polêmica. Não é para menos. Está em jogo um esforço 14 anos de batalha
dura pela estabilização monetária. A tensão se justifica pela magnitude da ameaça. A causa
da apreensão reside no fato de que estão instalados dentro do governo dois fatores de risco consideráveis:
a) O ministro da Fazenda pertence a uma escola de economistas dos anos 1950, cujos seguidores são adeptos da tese segundo
a qual o crescimento econômico acelerado compensa o convívio com taxas inflacionárias acima do que a maioria
dos países sérios do mundo tolera (cerca de 4% ao ano);
b) Estamos em ano eleitoral e o presidente patrocina uma ambiciosa estratégia de crescimento da penetração
eleitoral do PT, para o sucesso da qual a popularidade de Lula e a aprovação do governo são fundamentais.
Qual o remédio testado e aprovado para conter ameaças inflacionárias? A combinação da elevação
da taxa de juros com a contenção do gasto público. Sem meio termo.
Uma simples garimpada nos posts aqui replicados sobre o assunto denunciará um presidente da República que resiste
em adotar as medidas necessárias diante do risco inflacionário crescente. Lula parece ceder às tentações
do seu projeto de poder como se imaginasse possível conter o surto inflacionário deixando os dois protagonistas
do conflito interno do governo em torno da gestão da economia agir como entendem melhor. Isto é, o presidente
do BC aumenta os juros, mas o ministro da Fazenda libera o gasto desenfreado em ano eleitoral.
O aumento de 8% dos benefícios do Bolsa Família é sintomático dessa atitude do presidente. O ministro
Patrus Ananias pedira 6% a título de reposição da inflação. Lula concedeu mais. O presidente
pareceu querer mais do que apenas recompor perdas passadas. Ao conceder 2% a mais, Lula, ao mesmo tempo, pareceu querer antecipar
parte da perda futura. Ao assim agir, Lula sinalizou para o mercado que convive com a projeção de aumento da
inflação, e que sua reposta para isso é a indexação da mesada governamental aos pobres.
Essa postura do presidente, na prática, representa adesão à posição de Mantega e aos interesses
eleitorais do PT que pretende colher nas urnas os lucros da política econômica adotada. O partido do presidente
lançou candidatos próprios em 20 capitais; atropela aliados; avança sobre o interior do Brasil e recupera
penetração eleitoral nas regiões centro, sudeste e sul, pontos fracos do petismo desde as eleições
municipais de 2004. Tudo isso graças ao crescimento da economia, somente possível devido à gestão
ortodoxa de Meirelles e Palocci na primeira etapa do primeiro mandato de Lula.
A retórica de Lula sempre o exime de responsabilidades sobre tudo que acontece de ruim no país e com o governo.
Esse artifício tem sido usado com freqüência e eficiência em outras situações em que
o presidente critica seu próprio governo como se não tivesse nada a ver como isso. Convém lembrar, no
entanto, que isso somente funciona devido à associação que a população faz entre Lula e
o cenário econômico favorável existente até então.
Por um lado, Lula afirma em público que os pobres é que perdem com a inflação e que vai fazer
de tudo para impedir sua volta. Por outro lado, indexa o Bolsa Família e autoriza o gasto desenfreado de dinheiro público,
alimentando a inflação que, no discurso, diz combater. Para bom entendedor, o que Lula demonstra com esse tipo
de postura, é o desdém com o risco inflacionário.
Essa ilusão durará apenas até os índices de inflação chegarem ao dois dígitos.
A pesquisa CNI Ibope mostrou uma população atenta, apreensiva e insatisfeita com as medidas do governo de combate
à inflação. Não é pouca coisa para um povo que não vê inflação
há 14 anos. Com a sensibilidade assim, à flor da pele, o povo demonstra baixa tolerância ao risco de retorno
da inflação. A essa altura os políticos já introduziram esse ingrediente em suas equações
estratégicas de médio e longo prazo.
De imediato a apreensão da população não abala a estratégia eleitoral de crescimento do
PT que Lula patrocina liberando gasto público. Mas, a depender da velocidade de deterioração do quadro
inflacionário, decorrente das pressões externas e internas, às quais se soma a leniente ambigüidade
presidencial, não se devem descartar a hipótese uma mudança no estado de espírito da população
em relação a Lula e seu governo ainda em meio ao processo eleitoral em curso.
Não custa repetir. Quem quiser antecipar o cenário político brasileiro do futuro imediato, caso a inflação
chegue aos dois dígitos, basta aproveitar o dólar baixo e fazer uma visitinha à Argentina.
Paulo Moura, professor, site www.professorpaulomoura.com.br - 02/07/2008