A inflação já é a principal preocupação dos brasileiros, segundo a nova pesquisa
Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mas o temor não é só
dos brasileiros. O perigo imediato não é mais a recessão global, mas a inflação generalizada,
segundo o Banco de Compensações Internacionais, uma espécie de banco central dos bancos centrais, também
conhecido pela sigla BIS, em inglês. A grande tarefa dos bancos centrais, neste momento, é conter a alta de preços
- o 'perigo claro e iminente' - e combater a expectativa inflacionária, disse em Basiléia o gerente-geral da
instituição, o canadense Malcolm Knight. O ano começou com o mundo assombrado pelo temor de uma freada
econômica. Mas a preocupação número um foi substituída em menos de um semestre e o novo
relatório do BIS somente reflete essa mudança.
O Banco Central (BC) do Brasil já está empenhado na tarefa recomendada por Malcolm Knight. Seu último
Relatório de Inflação, publicado na semana passada, também alerta para o risco da consolidação
da expectativa inflacionária. Quanto mais fácil o repasse de aumentos, mais prontamente empresários e
consumidores passarão a dar como certa a escalada dos preços.
No Brasil, mais do que na maior parte das grandes economias, é preciso levar em conta o perigo da indexação,
um vício ainda não eliminado completamente. Nesse domingo, reportagem publicada no Estado chamou a atenção
para esse dado. É essencial evitar a reativação da espiral preços-salários-preços.
Os aumentos salariais ainda não superam os ganhos de produtividade na maior parte dos setores, e esse é um dado
positivo, mas contribuem, de toda forma, para sustentar uma forte demanda já alimentada intensamente pelo gasto público.
Se as pressões inflacionárias fossem mais brandas, haveria maior tranqüilidade para celebrar as boas notícias.
Na sondagem mensal da indústria de transformação, divulgada ontem, a Fundação Getúlio
Vargas detectou uma elevação da confiança do empresariado. De maio para junho o índice passou
de 119,9 para 121,8 pontos. O indicador foi 3 pontos mais alto que o de junho do ano passado.
Subiram também o índice da situação atual, de 125,1 para 126,6 pontos, e o de expectativas, de
114,6 para 117,1 pontos. Um dado especialmente importante foi observado na composição do índice de confiança.
Há um ano, 27% das empresas consultadas classificaram a demanda como forte. Nesse mês de junho, 31% fizeram a
mesma avaliação. Das 1.031 companhias consultadas, 49% programam elevar a produção nos próximos
três meses e apenas 9% têm planos de redução.
A expectativa de demanda aquecida, portanto, foi claramente indicada pela pesquisa. Além disso, o nível médio
de utilização da capacidade instalada passou de 82,3% há um ano para 86,4% no mês de junho recém-terminado
- apesar do crescente investimento em máquinas, equipamentos e instalações.
O cenário revelado pela pesquisa é altamente positivo quanto às possibilidades de aumento da produção
industrial e do emprego nos próximos meses. Tomada isoladamente, essa é uma excelente notícia, até
porque o otimismo pode traduzir-se em mais investimentos. Mas a avaliação da demanda também aponta para
uma possibilidade maior de repasse de custos.
As expectativas do mercado financeiro, captadas semanalmente pelo Banco Central na pesquisa Focus, continuam positivas quanto
à produção industrial, embora a projeção de crescimento em 2008 tenha caído ligeiramente,
de 5,61% para 5,56%. Se esse desempenho se confirmar, ainda será muito bom. As projeções de inflação,
no entanto, continuaram a deteriorar-se. No caso do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como
referência para a política de metas, a estimativa subiu de 6,08% para 6,30% em apenas uma semana.
Foi a 14ª elevação consecutiva. O novo número está muito próximo do limite superior
da meta, 6,5%. O centro da meta é 4,5% e a margem de tolerância é de dois pontos. A projeção
para 2009, estável até há pouco tempo, piorou pela terceira semana e chegou a 4,8%, pouco acima do ponto
central. O grande objetivo do BC, nesta altura, já não é reconduzir a inflação de 2008
aos 4,5%, mas conter a onda de aumentos para normalizar o quadro no próximo ano. Para isso, é essencial administrar
as expectativas e limitar o efeito da indexação.
Editorial O Estado de S.Paulo