REDE DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

14/01/2009

FOLHA DE LONDRINA - OPINIÃO

PRIMEIRO EU - Municípios devem cuidar de seu desenvolvimento

PRIMEIRO EU - Municípios devem cuidar de seu desenvolvimento

Somente o investimento no local poderá ajudar o país a superar crises provocadas pela globalização

Quando somos atingidos por alguma crise financeira originada em algum país distante, sempre fica a dúvida: vale a pena a globalização? É mesmo este o caminho? Seria possível fazer diferente e evitarmos as consequências dessas crises? Cuidar cada um da sua cidade, priorizar o local onde vivemos. Essa é a receita para prosperar e não sucumbir às crises, na opinião de Augusto de Franco, analista político que trabalhou ao lado de Ruth Cardoso no Comunidade Solidária.

Na era da globalização, quando qualquer ação em um país afeta todo o resto do mundo, o que fazer?

Por incrível que pareça, na medida em que o mundo se globaliza, ele também se localiza, ou seja, no mundo globalizado o local está conectado com outros locais. Existindo essa conexão local-global, só há chance de se inserir adequadamente com uma identidade local forte, uma marca, um princípio.

Pelo risco de um país influenciar a economia de todos os outros, não seria mais interessante sermos menos interligados? Há algum jeito de nos proteger da globalização?

Não há e não seria desejável. A globalização tem seus aspectos positivos e negativos. Uma crise financeira pode atingir o mundo todo mas, em compensação, a inovação que surge em um local vai para todos os outros lugares. Por isso que essa crise financeira internacional não tem uma solução tradicional. Soluções nacionais são inadequadas e são, de certa maneira, inócuas para um problema que hoje interliga muitos locais.

Existe algum método para nos prepararmos para isso?

Não há fórmula. A única orientação possível é liberar as forças empreendedoras do protagonismo local, ao invés de se querer fazer um grande projeto estatal. Hoje, o que é um país perfeitamente integrado? É aquele que possui multiplicidade de regiões, de cidades, de localidades, cada uma com o seu perfil, com a sua especificidade, as suas potencialidades desenvolvidas. Então teremos o desenvolvimento que será menos afetado por crises avassaladoras como essa que está acontecendo agora e que não será a última. Agora vamos viver um período de crises assim, que afetam o mundo todo. Na medida em que fica interligado é como se fosse um organismo só. Cada parte desse organismo precisa ter a capacidade de dar as suas próprias respostas.

Por esse ponto de vista, os prefeitos passam a ter uma importância muito maior...

Muito mais importante. Os prefeitos e as sociedades locais, as organizações da sociedade civil, passam a ser importantíssimos. Porque precisa-se de um mundo mais diverso, essa multiplicidade é que vai dar a capacidade de sobrevivência.

Devemos pensar então que cada município precisa ter suas formas de se autossustentar, independente do governo federal?

Isso já devia ser assim, porque o governo federal não é o governo dos municípios. Existe autonomia federativa, cada cidade tem sua própria vida. O problema é que o governo federal unificou isso por meio dos recursos, a maior parte da arrecadação é centralizada por ele. Mas isso é uma coisa insustentável, porque você acaba ficando com uma parte do bolo muito pequena, menor até do que aquela que merece. Isso em nome de sustentar uma unidade que não pode ser sustentada assim. Estamos entrando numa era do desenvolvimento das cidades, do protagonismo das localidades, isso é que vai ditar a nova pauta mundial. Ainda que os governos centrais resistam, eles não vão aguentar durante muito tempo.

No Brasil haveria problemas, porque temos cidades que não conseguiriam hoje se sustentar sozinhas...

A autonomia local é um caminho, não é uma fórmula que se adota da noite para o dia. A autonomia local vai sendo fortalecida quando as potencialidades locais são desenvolvidas. Cada região precisa descobrir o tesouro que possui enterrado lá.

Como podemos preparar essas cidades para isso?

Qualquer cidade pode fazer um processo de desenvolvimento local. Pega-se os sonhos do futuro, como a população quer a cidade daqui a dez, 15 anos. Vê o que é preciso para se chegar lá e o que falta, quais são seus ativos e suas necessidades. Traça-se a partir daí o mapa para se chegar nesse futuro desejado. Com o plano de desenvolvimento traçado, tira-se uma agenda que é o que vai ser feito no próximo ano e por último faz um pacto na sociedade local, na iniciativa privada, com as organizações da sociedade, com o governo e com os cidadãos para a promoção do caminho para se chegar no futuro desejado. O que não pode é ficar esperando aparecer um salvador da pátria, porque ele não vai aparecer.

Qual é a maior dificuldade hoje que o senhor vê para colocar esse plano em prática?

O sistema político. Tal como está organizado hoje, ele conspira contra o desenvolvimento. Os políticos, ao invés de estimular a iniciativa local, dizem ''fica aí quietinho que eu consigo para você''.

O sistema paternalista...

O paternalismo, o programa de bolsa disso, bolsa daquilo, vale isso, vale gás. Cada dia eles inventam um negócio novo, criando uma legião de pensionistas do Estado. Populações estado-dependentes. Quem é pensionista não se desenvolve, nem faz um suco para vender na rodoviária, porque pensa: ''no final do mês vou receber tanto dessa bolsa do meu 'pai' que está lá em Brasília e aí vou viver, vou comer''. Isso é uma forma de matar o desenvolvimento das pessoas e das localidades.

Érika Gonçalves
Reportagem Local

Deixe seu comentário

Nome (obrigatório)
E-mail (obrigatório)
Não será divulgado
Cidade (obrigatório) UF (obrigatório)
Site
Seu blog ou página pessoal
Mensagem



Li e aceito o termo de resposabilidade online
1. Os sites do Sistema Fiep incentivam a prática do debate responsável. São abertos a todo tipo de opinião. Mas não aceitam ofensas. Serão deletados comentários contendo insulto, difamação ou manifestações de ódio e preconceito;
2. São um espaço para troca de idéias, e todo leitor deve se sentir à vontade para expressar a sua. Não serão tolerados ataques pessoas, ameaças, exposição da privacidade alheia, perseguições (cyber-bullying) e qualquer outro tipo de contragimento;
3. Incentivamos o leitor a tomar responsabilidade pelo teor de seus comentários e pelo impacto por ele causado; informações equivocadas devem ser corrigidas, e mal entendidos, desfeitos;
Defendemos discussões transparentes, mas os sites do Sistema Fiep não se dispõem a servir de plataforma de propaganda ou proselitismo, de qualquer natureza. e
5. Dos leitores, nãos e cobra que concordem, mas que respeitem e admitam divergências, que acreditamos próprias de qualquer debate de idéias.
 
 
Rede de Participação Política
Av. Comendador Franco, 1341 - Jardim Botânico | 80215-090 | Curitiba | Paraná | Fone: 41 3271-7416 | Fax (41) 3271-7424

A Rede de Participação Política, apartidária, prioriza o debate democrático, com respeito à divergência de idéias e liberdade de expressão.Para que todos tenham oportunidade de expor seus pontos de vista. dentro de princípios éticos, seguem algumas orientações: 1) Não será permitido nenhum tipo de campanha, seja partidária ou comercial; 2) Não serão tolerados textos com teor pornográfico ou que sejam ofensivos a qualquer participante; 3) Todos os textos serão de responsabilidade dos seus respectivos emitentes; 4) Os administradores do site têm autonomia para retirar do ar qualquer opinião que fuja do contexto ético e democrático do debate.