Deputados aprovam ainda a convocação de Jobim para falar sobre maletas de grampo
A CPI dos Grampos da Câmara aprovou nesta quarta-feira(3) pedido de quebra de sigilo das Operações
Satiagraha, que levou à prisão o banqueiro Daniel Dantas, e da Chacal, que investigou suposta espionagem feita
pela empresa Kroll. Os deputados também aprovaram a convocação do ministro da Defesa, Nelson Jobim, para
que ele explique, na quarta-feira, a informação levada ao presidente Lula de que a Abin (Agência Brasileira
de Inteligência) comprou maletas de interceptações telefônicas, como revelou a Folha nesta quarta.
As informações sigilosas da Satiagraha foram pedidas ao juiz Fausto Martins De Sanctis, que autorizou a prisão,
entre outros, de Dantas, Naji Nahas e do ex-prefeito Celso Pitta, e as da Chacal ao juiz Luiz Renato Pacheco, especialmente
sobre dados relacionados aos grampos e pessoas interceptadas. O compartilhamento de dados da Chacal já foi pedido anteriormente,
mas negado pelo STF. O relator da CPI, Nelson Pellegrino (PT-BA), alega que agora o seus requerimentos estão discriminados
e que por isso os juízes não têm como negar.
O compartilhamento de dados tem que ser feito com a CPI, a não ser que os juízes recorram ao Supremo Tribunal
Federal e obtenham direito de não fornecer as informações.
Além de Jobim, os deputados também aprovaram a convocação do diretor-geral da Polícia Federal,
Luiz Fernando Corrêa, e a reconvocação de Paulo Lacerda, diretor afastado da Abin. Membros da CPI vão nesta
quinta ao STF convidar o presidente Gilmar Mendes a depor.
Nesta quarta, a CPI também ouviu José Milton Campana, diretor-adjunto da Abin, que foi afastado junto com Lacerda.
Ele confirmou que a agência adquiriu, em 2006, em conjunto com o Exército, uma maleta e admitiu que esta teria
capacidade para realizar escutas em um raio de, no máximo cem metros, em campo aberto. Segundo ele, no entanto, o equipamento
não foi comprado para este fim, mas sim para realizar varreduras.
"[O equipamento] não teria capacidade para qualquer tipo de escuta a mais de cem metros em campo aberto. De repente
poderia haver uma reversão [fazer com que o equipamento fizesse escuta em vez de varredura], mas se quiséssemos
ataque não compraríamos esse tipo de equipamento", afirmou.
Ao ser questionado sobre dados mais técnicos da maleta, Campana pediu a ajuda de Otávio Cunha, diretor do Cepesp
(Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para Segurança e Comunicação) da Abin. Cunha disse que a maleta
comprada para fazer a segurança dos Jogos Pan-Amercianos, pelo preço de cerca de U$ 20 mil, apesar de captar
os sinais de telefones, não conseguem descriptografá-los. Ele admitiu, no entanto, que o equipamento, um Omni-Spectral
Correlator, conseguiria fazer uma escuta ambiental em um campo geográfico pequeno desde que com transmissor de alta
definição.
O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) apontou que esse equipamento poderia ter sido usado para fazer, por exemplo, uma escuta
ambiental na ante-sala de Gilmar Mendes.
Nesta quarta, ao depor na CPI, Campana negou que a Abin faça escutas e disse que a agência não "atua
no submundo". "A Abin não atua à revelia da lei vigente, ou seja, não fez ou não faz
escutas telefônicas. A Abin não trabalha no submundo."
Nesta quarta, Campana também defendeu uma mudança na legislação para que a Abin seja autorizada
a fazer escutas.
FONTE: Folha de S.Paulo (Maria Clara Cabral)