Desafio é completar os estudos
Acesso à escola é considerado universal, mas apenas um em cada dois brasileiros consegue terminar o ensino fundamental
A criança brasileira tem vaga na escola, faz a matrícula
e freqüenta as aulas – tanto que o acesso já é considerado universal no país. Em 2005, 94,5%
das crianças e adolescentes de 7 a 14 anos estavam estudando. O porcentual indica que o país está no
caminho certo para cumprir o segundo objetivo de desenvolvimento do milênio, o de atingir o ensino básico universal,
dentre os oito definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Até 2015, prazo estipulado,
o país ainda tem muito a trilhar para que todos os meninos e meninas concluam um ciclo completo do ensino fundamental.
Do total de alunos que entram na escola, 53,5% terminam o ensino fundamental e apenas 46% se matriculam no ensino médio.
Os números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2005, quando comparados aos de 1992, mostram
um crescimento elevado de conclusão, mas que está longe de ser universal. Por causa disso, o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) aponta que América Latina e Caribe estão tendo um progresso rápido
no aumento de matrículas do ensino fundamental, mas insuficiente para que jovens de 15 a 19 anos concluam os estudos.
No meio do processo educacional, o Brasil perde aos poucos boa parte dos 94,5% matriculados inicialmente. O curitibano Wellington
Henrique da Silva Íris, 12 anos, usa o material que comprou para ir à escola como decoração. A
mãe dele, Silmara Silva Moreira, explica que tentou vaga para ele na 5ª série em duas escolas, deixou nome
na lista e até acionou o Conselho Tutelar, sem sucesso. O resultado é que o garoto fica de manhã em casa
vendo televisão e à tarde participa de atividades de um projeto escolar. “Desde o ano passado estou lutando
para pôr ele na escola. A diretora disse para voltar em fevereiro. Eu fui. Depois esperei começar e ela falou
que não tem vaga, vai ter de ficar na fila”, reclama Silmara. “É difícil porque dá
dó e ele fica atrasado. A única coisa que ele pode fazer é estudar e não tem vaga”, acrescenta.
De acordo com a conselheira tutelar da Regional Bairro Novo, Silvana Aparecida Bernardino de Morais, essa é uma reclamação
comum. “Muitos desistem porque ou a escola ofertada é distante ou o número de alunos em sala de aula é
grande”, diz.
Segundo o relatório nacional de acompanhamento para a obtenção das metas do governo federal, as dificuldades
para assegurar que todos os brasileiros concluam o ensino fundamental não são limitações de oferta
de vagas, mas condições dentro e fora da escola, que afetam o desempenho e a trajetória dos estudantes.
A superintendente de Educação da Secretaria de Estado da Educação, Yvelise Freitas de Souza Arcoverde,
verifica que muitas alunas abandonam a escola para cuidar de irmãos menores, por causa do envolvimento de adolescentes
com drogas e da violência na escola. “Sou otimista. Não queremos perder nenhum aluno, cada um que se perde
é uma derrota para o estado e para a sociedade. Não deixo escapar ninguém”, afirma. Yvelise mostra
que não existe falta de vagas e que o estado atende à demanda, mas muitas vezes a família quer que o
filho estude em determinada escola. A criança entra em lista de espera, mas no período não fica sem estudar,
segundo a superintendente. Além do abandono, há a questão da repetência. O Brasil paga um custo
de US$ 8 bilhões por ano por causa da repetência de alunos – é o custo mais alto dentre 15 países
da América Latina e do Caribe.
Desafios
Diante dos desafios, o diagnóstico do Pnud é de que a região deve empreender maiores esforços
e destinar mais recursos à educação, universalizar a educação pré-escolar, aumentar
a cobertura do ensino de nível médio e melhorar a qualidade.
Algumas iniciativas do governo federal nesse sentido foram a elaboração do Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização do Magistério (Fundeb), que prevê
aporte de recursos; o aumento do tempo de permanência do aluno na escola, por meio da ampliação de oito
para nove anos de estudos; e o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), para aumentar o nível de desempenho
médio dos brasileiros.
Participação dos cidadãos é fundamental
Para o Brasil atingir os objetivos de desenvolvimento do milênio, a mobilização da sociedade será
fundamental, segundo a coordenadora do projeto Nós Podemos Paraná, da Federação das Indústrias
do Estado do Paraná (Fiep), Maria Aparecida Zago Udenalo. Com relação à educação,
ela explica que podem ser adotadas ações simples, como o acompanhamento da educação do filho.
O pai pode verificar se a educação é de qualidade e se a escola tem bom desempenho. Da mesma forma, cada
cidadão pode se tornar voluntário. “Tenho observado que as pessoas gostariam muito de trabalhar como voluntários,
mas muitas vezes não sabem como atuar”, afirma.
Maria Aparecida cita que os interessados podem procurar o Centro de Ação Voluntária, em Curitiba; associações
de pais e professores que atuam nas escolas; e o projeto Amigos da Escola. “É lógico que o poder público
tem seu papel, mas a sociedade pode contribuir muito e avançar mais rápido. As empresas podem olhar (para a
área) na hora de fazer seu projeto de responsabilidade social. É um movimento de toda a sociedade e a participação
do poder público é de suma importância”, explica.
Para alcançar as oito metas da ONU, Maria Aparecida diz que os objetivos serão trabalhados por meio da educação.
Para a meta da redução da fome, por exemplo, pode-se trabalhar com a conscientização para a diminuição
de desperdício; para o meio ambiente, na questão da separação do lixo; e na saúde, com
ações de prevenção. (BMW)
Paraná cumpriu 98,3% da meta
No Paraná, 98,3% das crianças e adolescentes estão matriculados no ensino fundamental. Na questão
de acesso, o estado praticamente cumpriu a meta. O que falta é aumentar o índice de 55% dos matriculados que
concluem a 8ª série na idade correta. No Paraná, o desafio é alcançar as oito metas até
2010.
O estado implementou ações para aumentar a permanência dos alunos na escola, como salas de apoio –
reforço no processo de alfabetização –; investimento no professor e em material didático;
implementação do programa de merenda escolar; orientação sexual; manutenção das
escolas; e atividades culturais. “Muito mais que dar acesso e permanência, que já vêm sendo enfrentados,
a questão mais séria é como fazer que o aluno, que agora tem acesso, permaneça na escola, mas,
principalmente, que ele aprenda”, diz a superintendente da educação da Seed, Yvelise Arcoverde.
No entanto, com programas de educação de jovens e adultos, o estado consegue um índice de 80% de conclusão
do ensino básico. Em 2003, existiam 650 mil pessoas acima de 15 anos analfabetas. Atualmente são 300 mil. A
escolaridade da população adulta, de 25 anos ou mais, ainda é baixa em várias regiões do
Paraná, principalmente na Região Central do estado e no Vale do Ribeira, segundo relatório do Sistema
Federação das Indústrias do Estado do Paraná (veja infografia). Até 2010, o objetivo do
Paraná é ser considerado território livre do analfabetismo.
Na questão de qualidade, o Sistema Nacional da Educação Básica (Saeb), de 2005, mediu que o estado
tem notas superiores à média nacional entre alunos de 4ª série do ensino público. Já
na 8ª série, o Paraná perde posições e tem média menor que a nacional em Português.
Fonte: Gazeta do Povo