Educação
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Escola boa é a que fica de portas abertas

Pesquisas avaliam impacto de programa que mantém 65 colégios de Curitiba abertas nos fins de semana e já teve 2,7 milhões de participações

Há três anos, os sábados e domingos dos moradores de boa parte das periferias de Curitiba foram assaltados por uma novidade – o Comunidade Escola. O programa, recomendado pela Unesco, é de uma simplicidade gritante: nos fins de semana, os colégios ficam abertos para oficinas, eventos e campeonatos esportivos. A estratégia – garantem os técnicos da organização – serve de remédio para o mal do século, a violência, já que instituições de ensino sem cadeado no portão passam a funcionar como espaço de sociabilidade.

Para saber se “chegou lá”, a Secretaria Municipal de Educação fez uma parceria com Núcleo de Avaliação de Políticas Públicas Educacionais (Nappe), da Universidade Federal do Paraná, e encomendou uma pesquisa junto a 900 participantes e não-participantes do projeto, aplicada em 2007. Em paralelo, fez seu próprio levantamento – este qualitativo – com 22 agentes do programa, com os quais desenvolveu entrevistas em profundidade. Também foram realizados 10 grupos focais, reunindo entre 80 e 100 voluntários cada um. Uma maratona.

Ontem, num seminário para 500 pessoas no Salão de Atos do Parque Barigüi, a secretaria apresentou dados parciais dos dois estudos. Em meio ao deserto estatístico que impera no país quando se quer saber qual é, afinal, o impacto de uma política pública, os índices garimpados pelo núcleo da UFPR e pela própria prefeitura merecem ser saudados com tiros de canhão. A eles.

Balanço

Desde seu início, em 2005, o Comunidade Escola teve 2,7 milhões de participações e 37 mil atividades – tudo isso, praticamente com o mesmo equipamento que os colégios oferecem dia após dia a seus alunos. Das 172 instituições municipais, 65 implantaram o projeto. Em paralelo, este ano, o governo do estado adotou um modelo semelhante, o Escola Aberta, em 11 de seus colégios de Curitiba e região metropolitana, com previsão de chegar a 28 unidades até dezembro.

“Eu sempre acreditei no programa, mas confesso que não imaginava que ia crescer tanto”, comenta a psicóloga Liliane Casagrande Sabbag, coordenadora do Comunidade. “O programa está em regiões pobres, que estão formando seu capital social. São áreas que ainda moldam sua cultura. O Comunidade Escola se tornou um espaço para apressar esse processo”, analisa o economista da UFPR, Fábio Scatolin, membro do Nappe.

Não é exagero afirmar que em pouco tempo o Comunidade Escola vai se tornar um dos índices de organização das cidades, tamanha a quantidade de informações deixadas no lastro dos participantes. E são informações surpreendentes – particularmente no que diz respeito à população adulta – desescolarizada e menos visada por programas sociais. No estudo da UFPR, por exemplo, é essa fatia que vê no Comunidade uma oportunidade de “aprender mais”, como indicam 50% das respostas, apontando para a sociedade do conhecimento, como diz Fábio.

Não é tudo. Uma das qualidades mais notáveis das duas pesquisas é que ambas evitaram dar corda à fissura geral da nação por medir o sobe-e-desce da violência. O efeito dessa relativização do crime é que os números apontam não só saídas para sanar o medo e reduzir a criminalidade, mas alternativas de ação para quase todo o resto. Inclusive para a própria educação, cujo papel no programa corria o risco de ser o de apenas emprestar o prédio e os funcionários aos sábados e domingos.

Os pesquisadores investigaram, por exemplo, se ir à escola nos fins de semana melhora o desempenho e estreita os vínculos de crianças e jovens com o local onde estudam. A resposta é sim, como atestaram maciçamente os entrevistados da secretaria. No estudo da UFPR, 35% acham que o programa reduziu a depredação e aumentou o pertencimento, o que por si só já valia um bolo gigante no Centrinho de Santa Felicidade. “A percepção é de que quem participa do programa aumenta os vínculos, respeita a escola e se torna mais participativo”, pontua a pesquisadora Cléa Mara Reis Félix, para quem a melhor notícia é a adesão dos alunos que estão no chamado bord line – a linha de risco que os separa dos pequenos delitos.

Já quanto à violência – dada a expectativa gerada pela própria Unesco – a resposta dos escutados pela secretaria poderia ser “ainda não.” Os entrevistados identificam o aumento da cultura de paz e vêem os bairros menos vulneráveis, acreditam na eficácia do programa, mas não dizem mais do que isso.

O banho de água fria é visto com naturalidade pelos pesquisadores Fábio Scatolin e Cléa Mara. “A percepção da violência é uma questão muito complexa”, explica Scatolin, referindo-se à evidência de que até zonas pacificadas são marcadas pelo medo. Para aprofundar o assunto, requer-se uma segunda empreitada, dessa vez cruzando os índices de criminalidade de cada bairro antes e depois do Comunidade Escola. Impossível esconder a ansiedade.

Parolin vira espaço para dança afro

Das 37 mil atividades desenvolvidas pelo Comunidade Escola desde sua implantação na capital, em 2005, uma atende por um nome curioso, parecido ao de um grupo de pagode. É o Ginga Total, desenvolvido na Escola Municipal Itacelina Bittencourt, plantada em uma das áreas mais problemáticas da capital – o Parolin. Apenas nos primeiros meses deste ano, o bairro teve 13 homicídios, um descalabro para uma região onde moram apenas 12 mil habitantes.

Adilto José de Paula, 28 anos, o Black, conhece bem o território. Morador da Vila Formosa, ele trabalha como educador social no Instituto Salesiano – obra social voltada para a inclusão de crianças e adolescentes na Vila Guaíra, vizinha do Parolin. Foi um passo chegar ao Itacelina, onde o rapaz ofereceu uma oficina de dança afro e suas variantes. “Eu mesmo saí de um programa assim, o Acnap. Foi lá que aprendi tudo o que sei”, conta.

O Ginga teve sucesso imediato. Em dois anos, passou a ser disputado por um público de 7 a 18 anos. Entre um ensaio e outro, Black – que é voluntário – passou a ter acesso às histórias inacreditáveis de alguns de seus bailarinos. Foi o que bastou para que dali em diante não marcasse nenhum compromisso nos sábados e domingos. “Estou convencido do benefício do programa. A escola é a única opção de lazer para essa criançada”, decreta o rapaz, cuja oficina já ultrapassou as divisas do Parolin.

Por esses dias, a ala juvenil do Ginga ensaia para uma futura apresentação no Teatro Guaíra. E espera aprovação de recursos junto a leis de incentivo para ampliar o projeto para além dos limites do Comunidade Escola. Com R$ 20 mil anuais, estima Black, 55 participantes podem ser beneficiados. O clima é de torcida.

Associativos, interessados e participantes

O perfil dos participantes do Comunidade Escola é previsível. Ou quase. A pesquisa coordenada pelo professor Flávio Gonçalves, da UFPR, ano passado, aponta que crianças e jovens somam 81% dos freqüentadores. Eles não nasceram em berço esplêndido: 77% não possuem computador em casa – o que justifica os cursos de informática serem campeões de audiência -; e mais de 70%, nas mais diversas faixas etárias, não têm acesso fácil a bens culturais como museus e salas de exposição. Não à toa, um número nada inofensivo mostra que 37% dos alunos-oficineiros do Comunidade têm o hábito de passar muito tempo na rua.

O surpreendente, contudo, é a quantidade de itens da pesquisa que apontam a relação entre ser participante do Comunidade Escola e ser participante de todo o resto – de igrejas a times de futebol. Basta dizer que 71% freqüentam o programa pelo menos uma vez por mês, um índice alto. Esse e outros dados confirmam a abertura dos associativos aos programas sociais e a tendência que têm a dar respostas mais positivas. O resto é bingo.

Livros

Os indícios de que os participantes são interessados aparecem a torto e a direito: 56% dos oficineiros têm de 1 a 20 livros em casa e 22% de 21 a 100 livros – resultados altos para a parcela econômica incluída no projeto, na casa de meio salário mínimo per capita. Mais: 49% nunca reprovaram na escola; 57% moram com o pai, indicando famílias mais sólidas. Entre os adultos, 81% estão ligados a alguma igreja e 14% dizem ter grande participação nos grupos dos quais fazem parte.

No quesito violência, a turma do Comunidade Escola também se sai melhor do que os não-participantes. Um aperitivo: 19% das crianças que freqüentam o programa já sofreram agressão verbal e 8% agressão física. Entre os não-participantes consultados esses números saltam para 32% (agressão verbal) e 17% (agressão física).

Fonte: Gazeta do Povo



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