Rubem Alves e Dimenstein defendem escola atraente para combater a evasão
Especialistas participam do Encontro da Comunidade Escolar, promovido pelo Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial para debater as causas da evasão escolar e propor soluções
Salas
superlotadas, conteúdos pouco atraentes, professores mal treinados e pais que não se envolvem com o aprendizado dos filhos
são as principais causas da evasão escolar. A opinião é do jornalista Gilberto Dimenstein, que participou nesta terça-feira
(19), em Curitiba, do 1º Encontro da Comunidade Escolar, promovido pelo Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial, órgão
consultivo do Sistema Fiep.
Dimenstein, que falou sobre "A Educação contra a Invisibilidade Humana", disse que 70% do conteúdo dado em sala de aula é completamente desprezível. Segundo ele, são conteúdos que os alunos não usam e não usarão no seu dia a dia. "O melhor que uma escola tem a fazer por uma criança é despertar o prazer pelo aprender. A escola deve ensinar a criança a pesquisar e a aplicar os dados e não ficar decorando tabela periódica, por exemplo", disse.
O jornalista destacou o fato de um evento que tem como tema a evasão escolar estar sendo realizado por iniciativa do meio empresarial. "Quando a gente vê empresários discutindo não apenas taxa de câmbio e juros, mas também a educação, significa que eles estão percebendo o outro valor da economia, o valor do conhecimento", frisou.
O escritor Rubem Alves, que proferiu a palestra "A Educação dos Sentidos" classificou a pedagogia de ensino como chata e pouco atrativa" para as crianças. "Nenhuma criança evade de um parque de diversões, de um circo ou de uma sorveteria", diz o autor. Segundo ele, as pessoas só aprendem o que tem alguma utilidade para a vida delas ou o que é divertido. "O que se aprende tem que fazer algum sentido, pode ser uma ferramenta, algo que a criança vá usar para alguma coisa, ou um picolé, algo gostoso de aprender", comparou.
Em sua obra "Vamos Construir uma Casa", Alves defende a utilização de métodos de ensino mais próximos à realidade das crianças. O escritor propõe a utilização de cada peça de uma casa e o que há dentro dela para ensinar física, química, geografia, história, etc. "As crianças podem aprender observando o fogo do fogão, o conserto da instalação elétrica. Pode aprender sobre ecologia e florestas, observando a madeira. Enfim, dentro de uma casa há uma série de materiais que permitem ensinar muita coisa".
O evento reuniu 1.200 representantes de escolas públicas e particulares de Curitiba e Região Metropolitana para discutir as causas da evasão escolar e buscar soluções para enfrentar o problema. "A educação básica deve ser a prioridade número 1 de um país porque é a pedra angular para se atingir um outro estágio de desenvolvimento", disse o presidente do Sistema Fiep, Rodrigo da Rocha Loures, na abertura do evento. Rocha Loures, que também preside o Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial, defendeu a educação que faça sentido para o aluno. "Os professores têm muito potencial, mas muitas vezes a burocracia do sistema educacional não permite que este potencial seja aproveitado em prol dos alunos", declarou.
Rocha Loures lembrou que as discussões do evento estão alinhadas à meta nº 2 dos Objetivos do Milênio, que é garantir educação básica de qualidade para todos. Ele informou que a boa notícia é que a consciência da responsabilidade social e da responsabilidade política já está hoje disseminada entre o empresariado. Rocha Loures destacou as iniciativas de educação do Sistema Fiep, por meio do Sesi e do Senai, como a educação infantil, o Colégio Sesi, e a Escola-Indústria Itinerante, como possibilidade de parcerias para contribuir no processo de combate à evasão escolar.
A promotora de Justiça do Centro de Apoio da Criança e do Adolescente, Marcela Rodrigues, que atua junto aos Conselhos Tutelares disse que eles funcionam como agentes articuladores que tomam medidas para que a criança não se ausente da escola. Hoje, o trabalho do Conselho Tutelar é atender às demandas das escolas quando as mesmas não dão conta de acompanhar o aluno que não vai mais às aulas. "Este papel é da escola, mas ela não dá conta disso por falta de estrutura", disse. A promotora informou que já existe uma Lei estadual que prevê que a escola pública tenha uma equipe formada por psicólogos, pedagogos e assistente social para cuidar diretamente dos casos de evasão. No entanto, ainda não foram criados esses cargos, disse.
Para a procuradora do Ministério Público do Trabalho, Margaret Mattos, o trabalho infantil é a principal causa da evasão escolar. "O maior prejuízo para as crianças é com a alfabetização, uma vez que não freqüentam as aulas corretamente e não têm um aproveitamento escolar satisfatório", disse. De acordo com ela, o trabalho infantil existe, mas temos poucas denúncias vindas da rede escolar. Isso é preocupante, porque é justamente o professor que conhece os alunos e sabe das causas da evasão", afirma, propondo uma melhoria no canal de comunicação entre os estabelecimentos de ensino e os órgãos competentes de denúncia de trabalho infantil. "Lugar de criança é na escola, estudando, se preparando para a vida", declarou.
A diretora de legislação e normas do Sinepe (Sindicato de Escolas Particulares do Paraná), Maria Luiza Xavier Cordeiro, informou que o índice de evasão não é tão elevado no ensino privado. "Isso porque as escolas particulares têm uma relação mais estreita com seus alunos e procuram saber tudo o que se passa no ambiente escolar e familiar". Ela defende o ensino fundamental de nove anos. "Há uma grande relação entre a evasão escolar e o novo sistema do ensino fundamental de nove anos. Quanto mais cedo a criança começa a freqüentar a escola, mais tempo ela tem para se habituar à rotina e menor as chances de estar criança abandonar a escola", declarou.
Além de assistirem as palestras, os participantes do evento puderam interagir por meio de um diálogo apreciativo. As conclusões do evento serão encaminhadas como recomendações à secretaria estadual e às secretarias municipais de Educação, ao Ministério Público, ao Sindicato das Escolas Particulares e aos Conselhos Tutelares.
Evasão escolar
De acordo com dados da Secretaria Municipal de Educação, Curitiba é uma das capitais com os menores índices de evasão escolar. Em 2002, o índice de evasão de 1ª a 8ª série foi de 4,8% e em 2003 e 2004 (último dado disponível) este índice baixou para 2,7%. Curitiba, só perde para São Paulo, onde o índice de evasão está em 2% desde 2002. As capitais com maiores índices de evasão no Brasil em 2004 foram Cuiabá, com 17,4%, Salvador, com 12,6% e Fortaleza, com 9,6%.
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